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Louise de Melo Cruz

Sobre o autor:

Louise de Melo Cruz

Pós-Graduanda/EMAB. Salvador – Bahia.


E-Mail: louise_mello@hotmail.com

Os direitos femininos e a Igreja

É bem provável que a leitura do título deste
despretensioso artigo, já tenha lhes dado a
tônica da abordagem que está por vir. De fato, foi o caso do aborto terapêutico-humanitário realizado na garotinha pernambucana de apenas 9 anos- exaustivamente tratado pela mídia e comentado pelos mais diversos especialistas e cidadãos-, que inspirou as seguintes
observações.

Bem. Juridicamente, não há dúvidas quanto ao acerto da equipe médica que realizou o aludido aborto na criança. Isso porque, a lei penal autoriza expressamente a realização do aborto em duas hipóteses: quando a gravidez for decorrente de estupro ou quando dela provier risco para a vida da mãe. No caso da menina pernambucana, incorriam as duas previsões excepcionais.

Socialmente, não há muito o que acrescentar, visto que o comportamento de um sujeito que representa a figura de pai para uma criança, e a violenta sexualmente desde os seis anos, desperta a revolta de qualquer cidadão.

E religiosamente? Pois é. O bispo de Olinda e Recife, chamado a se manifestar sobre o caso, deu um pronunciamento deplorável em rede nacional. Afirmou que o aborto realizado pelos médicos na garotinha era um ato mais grave para a Igreja Católica do que os estupros realizados pelo seu padrasto.

Vejamos. Eu sou católica e respeito bastante os dogmas religiosos. Também não me daria ao trabalho, nem lhes cansaria, com abordagens críticas ao aludido Bispo e à Igreja, pois tais tarefas deixo aos jornalistas e cidadãos. Ademais, entendo que enquanto os juristas são especialistas no trato das Leis e dos Direitos, os representantes de uma Igreja são profundos conhecedores dos dogmas e mandamentos da sua religião. Por isso, não criticarei a manifestação do religioso no que diz respeito à hierarquia dos pecados terrenos.

Aquilo que foi dito, nós vamos ter que
“engolir”, porque a nós não compete interferir
no julgamento da Igreja sobre o ocorrido.
Entretanto, a Igreja também tem que conviver
com o nosso julgamento sobre fato: que pune o estuprador e protege os médicos que salvam e devolvem esperanças.

Então por que chamar o depoimento
multicitado de deplorável?

Porque ele desconsidera completamente
todas as conquistas femininas ao longo das
décadas e desrespeita os padrões sociais
impostos pela família. ///////////////////////////////////
Lembremos dos primórdios da sociedade: a
mulher era comercializável, sem direitos,
objeto sexual dos homens. No Brasil, até a
edição do Código Civil de 2002, aliás, a mulher casada era relativamente incapaz; resquício de uma sociedade machista e repressora.

E então, o contexto social mudou. O Estado, já separado da Igreja, acompanhou, aos poucos, essas alterações. Diversas leis foram editadas para proporcionar às mulheres igualdade de tratamento e, é claro, de direitos e deveres.

A mulher tornou-se dona de sí. Livre para
dispor do próprio corpo quando bem entender e consentir, sob pena da prática de crime contra a mesma. Livre para nascer no seio de uma família e ter o mesmo valor e proteção de um filho varão. As fronteiras femininas se alargam a cada dia: poucas se restringem às tarefas domésticas, e à estas já se reconhece direitos patrimoniais do esforço comum no casamento.
A lei Maria da Penha, apesar de levantar
algumas objeções, veio para demonstrar aos
que insistem em tratar as mulheres como seres a eles submissos, que nenhuma violência será mais admitida.

O que se falar então quando essa violência é praticada contra uma criança, que tem sido alvo das mais fervorosas políticas públicas de proteção? Quando são retirados na infância todos os sonhos e promessas de liberdade de uma mulher que nem se formou física e psicologicamente?

Não me parece que a intenção de Deus fosse relegar eternamente às mulheres um papel tão secundário e desprezível na terra.

Então, assim como o Estado evoluiu e
modificou seus ditames legais, a família
superou padrões e colocou a mulher no seu
centro e, a sociedade venceu tabus,
readequando-se à revolução feminina, o que
falta aos intérpretes dos postulados cristãos é adequação ao tempo presente.

A pureza daquela infeliz garotinha ninguém poderá devolver. Os médicos lhes deram a chance de continuar viva; os psicólogos tentarão lhe devolver a motivação; o judiciário tratará de dar ao seu agressor a devida punição.

A religião deve lhe dar o acalanto. Em termos
cristãos, só à Deus competirá julgar a todos
no final.

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