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Luiz Flávio Gomes

Sobre o autor:

Luiz Flávio Gomes

Doutor em Direito penal pela Universidade Complutense de Madri, mestre em Direito Penal pela USP. Foi promotor de Justiça (1980 a 1983), juiz de Direito (1983 a 1998) e advogado (1999 a 2001), diretor-presidente da Rede de Ensino LFG. São Paulo – São Paulo


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Mercado de Trabalho

Quase 10 milhões de jovens brasileiros (15 a 29 anos) no Brasil não trabalham nem estudam. É um exército de reserva que pode ser manobrado para o bem ou para o mal. A classe dominante brasileira sempre teve medo de uma rebelião dos escravos (Darcy Ribeiro). Mas são os antagonismos sociais (desigualdades) do nosso capitalismo selvagem e extrativista que podem um dia explodir por meio de uma violência coletiva devastadora. O IBGE (na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio de 2012) apontou que os jovens que não trabalhavam nem frequentavam a escola, os chamados de “nem-nem”, representavam 19,6%. Isso significa 9,6 milhões de jovens, de uma população estimada para o período de 48, 8 milhões de jovens, na faixa etária de 15 a 29 anos. O problema, aliás, é mundial. O relatório Tendências Mundiais de Emprego 2014 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) mostra que o desemprego entre os jovens continua aumentando. Em 2013, 73,4 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos estavam sem trabalho - quase 1 milhão a mais do que no ano anterior. Isso representa uma taxa de desemprego juvenil de 12,6 %, mais do que o dobro da taxa de desemprego geral de 6,1%. A pesquisa revelou que o número de jovens que não trabalham nem estudam cresceu em 30 dos 40 países pesquisados. Em 2013, 1 milhão de jovens perderam seus trabalhos.

Boa parcela desses milhões de jovens que não estudam nem trabalham conta, no entanto,
com estrutura familiar (é o grupo Nem-Nem acolchoado). O restante é desfamiliarizado
(não tem uma constituição familiar sólida nem amparo social, como é corrente nos países
de capitalismo selvagem e/ou concentrador: Brasil, EUA etc., que nada têm a ver com os
países de capitalismo evoluído e distributivo, civilizados, como Dinamarca, Noruega, Japão,
Alemanha, Islândia etc.). Esse grupo desfamiliarizado (Nem- -Nem+), nos países de capitalismo
selvagem e extrativista, é uma verdadeira bomba-relógio, em termos sociais, de potencial
criminalidade e de violência. Por quê? Porque os fatores negativos começam a se somar (não
estuda, não trabalha, não procura emprego, não tem família, não tem projeto de vida...). Se a
isso se juntam más companhias, uso de drogas, convites do crime organizado, intensa
propaganda para o consumismo, famílias desestruturadas etc., dificilmente esse jovem escapa
da criminalidade (consoante a teoria multifatorial da origem do delito). Milhões de jovens,
teoricamente, estão na fila da criminalidade (e nossa indiferença hermética não se altera um
milímetro com tudo isso).

Diferentemente dos países civilizados de capitalismo evoluído e distributivo (que teriam todos esses jovens dentro da escola), nosso capitalismo bárbaro não se distingue pela educação de qualidade para todos, pelo ensino da ética, pelo império da lei e do devido processo e pela alta renda per capita. O Brasil, aliás, ocupa a vergonhosa 85ª posição no ranking mundial do IDH (índice de desenvolvimento humano). Estamos vivendo uma grave crise intergeracional. A cada dia é “roubado” o futuro de uma grande parcela das gerações mais jovens. Quando as esperanças desaparecerem completamente, o risco é de eclosão de uma grande explosão local e/ou mundial de violência.

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