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Euripedes Brito Cunha

Sobre o autor:

Euripedes Brito Cunha

Advogado e Pós Graduado em Direito Imobiliário pela Universidade Católica do Porto - Portugal. Conselheiro Vitalício da OAB/BA; Membros dos Institutos dos advogados da Bahia e Brasileiro; Presidente do Instituto Baiano de Direito do Trabalho e Membro Honorário da Academia de Letras Jurídicas do Sul da Bahia (ALJUSBA) Salvador – Bahia.


E-Mail: ecb@britocunha.com.br

Anoitecer

O Jornal do Brasil publicava nos fins de semana, uma reportagem no estilo perguntas e respostas sintéticas, rápidas, e perguntava, por exemplo, qual o autor preferido pelo entrevistado, ou o livro predileto, e se homem o entrevistado, qual a parte do corpo feminino o atraia mais. Entre as perguntas, uma era mais presente: você prefere o anoitecer ou o amanhecer? Não me lembro mis qual a predileção declarada pelos entrevistados, sempre pessoas de destaque na sua área de atuação, fosse um ator, um escritor, um artista plástico, por exemplo.

A lembrança daquela coluna que deixou de existir há alguns anos, voltou à minha cabeça no domingo passado quando, ao anoitecer, deixei o livro que estava lendo, pus o jornal de lado (sempre leio algumas publicações ao mesmo tempo, visitando ora uma ora outra, sem critério determinado), e fui até a varanda, admirar o anoitecer, o cair do sol, e, sobretudo o recorte das árvores distantes e de uma casa de fazenda plantada a uns poucos quilômetros de distância, no meio de um morro e cercada de mangueiras, coqueiros e outras fruteiras.

Desde muito tempo o anoitecer me trouxe uma certa nostalgia, quase tristeza, de modo que sempre preferi ficar em casa, ler, ver um filme, afastando a visão e o sentimento do anoitecer, esperando que a noite apagasse com a escuridão todo aquele sentido de uma dor anímica inexplicável, para a qual nunca encontrei uma razão. No domingo a que me referi, todavia, a nostalgia chegou a me esmagar todos os demais pensamentos, a afastar qualquer alegria, o por do sol cobria também de solidão a minha alma, escurecia qualquer outra sensação, desde que fosse boa. Era só amargor, mas não consegui arredar-me dali até que a sombra cobriu tudo até desaparecer as figuras projetadas no horizonte recortando o céu, quando despertei daquele “coma” inexplicável , mas bem presente e quase palpável. Eu, ali na varanda do piso superior de minha casa, plantado no chão vivendo a solidão e a tristeza do por do sol, guardando a escuridão dominar toda a paisagem. Contraditoriamente, a escuridão total despertou-me (não havia luar), e ao “acordar” e perceber o inteiro desaparecimento da luz do sol, surpreendi-me com o acender das luzes do jardim que funcionam sob o sistema fotoelétrico.

Voltei, então para poltrona que me abriga a maior parte do tempo que estou em casa e retomei as leituras deixadas pouco antes. Não consegui reiniciar as leituras logo, porque me lembrei , então do amanhecer, que é a minha hora preferida do dia. O amanhecer, o iniciar de um novo dia, o nascer do sol espancando a escuridão, as expectativas nascentes, o renascer das esperanças, o moimento da criação de novos projetos e sonhos a serem realizados.

Voltei agora em definitivo, às leituras, e lá fiquei distraindo-me, fosse com as notícias e comentários dos jornais, fosse com a releitura de O Processo, de Kafka, até adormecer e recolherme sob os cobertores até o novo amanhecer com suas novas esperanças, novos sonhos...

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